23 de agosto de 2011

A nova safra de autores de telenovelas



Desde que o novelista Aguinaldo Silva estreou no horário nobre ao lado de Glória Perez, na novela Partido alto, há 27 anos, apenas três nomes ascenderam ao restrito olimpo do horário das 21 horas: Silvio de Abreu, João Emanuel Carneiro e Benedito Ruy Barbosa (este último nem tem mais produzido obras para essa faixa). Gilberto Braga e Manoel Carlos completam o seleto grupo de autores do horário nobre.

No total, são seis pessoas. Elas representam a elite de uma categoria com 28 criadores em atividade, responsáveis pelas oito novelas que, em média, entram no ar todo ano.

É uma indústria inteira movida pela criatividade de pouquíssimos escritores, que vivem uma constante necessidade de renovação. “Precisamos de autores novos”, afirma Aguinaldo Silva, cuja novela Fina estampa estreia nesta semana na Rede Globo. Agora, uma nova geração de novelistas tem se destacado na busca por um lugar nessa elite.

A hierarquia informal da carreira de autor é simples. Começa-se como pesquisador, uma espécie de repórter que levanta informações sobre temas tratados na novela. O passo seguinte é o colaborador, que escreve as cenas. Acima dele está o coordenador, um colaborador mais experiente que coordena os trabalhos dos demais. No topo da equipe, o estressadíssimo autor, que comanda o grupo.

Os primeiros passos para os aspirantes a entrar na carreira são os cursos livres – de preferência, os ministrados por autores conhecidos. Foi esse o caminho trilhado por Vitor de Oliveira, de 34 anos. Ele frequentou um curso de roteiro de seriados dado por Max Mallmann, roteirista de A grande família. Com isso, Oliveira conseguiu uma indicação do professor para a disputadíssima Oficina de Autores da TV Globo em 2010. Frequentou as aulas por quatro meses. Um ano depois, ele integra a equipe que escreve o remake de O astro. “É a realização de um sonho”, diz. Desde 1990, já passaram por lá cerca de 630 alunos. A Oficina da Globo não é, porém, garantia de emprego num mercado tão restrito.

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Até o ano 2000, a Globo promovia concursos para novos talentos. O ingresso na Oficina passou, então, a ser limitado. O SBT, outra emissora que investe em novelas, não promove cursos do tipo porque costuma trabalhar com roteiristas experientes. Nas próximas semanas, a Record deverá inaugurar sua própria oficina, mas ela tampouco será aberta ao público. “Se fizermos isso, será uma avalanche de candidatos”, afirma Hiran Silveira, diretor de teledramaturgia do canal. Ele diz receber de cinco a seis projetos de novela por dia. “Muita gente quer escrever, mas poucos estão preparados.”


Não há pré-requisitos para que um aspirante comece a trabalhar na TV. Mas há consenso entre os veteranos de que alguma experiência como escritor conta. “Não acho bom que se queira escrever apenas novelas”, diz Walcyr Carrasco, jornalista por muitos anos e hoje um autor de sucesso na Globo (ele está no ar com Morde e assopra, no horário das 7). “A paixão tem de ser por escrever: teatro, poesia, o que for.” O caso de Marcilio Morais, um dos principais autores da Record, é um exemplo da importância da experiência prévia. Ele começou na Globo na década de 1980, depois de se firmar como dramaturgo e de chamar a atenção do escritor Ferreira Gullar – que escrevia uma minissérie na ocasião. “Eu já tinha um trabalho sólido. Acho isso importante”, diz Morais.


Um dos maiores talentos da nova geração, Vincent Villari, é uma exceção a essa regra. Ele foi contratado pela Globo ainda adolescente. Aos 16 anos, inscreveu-se num concurso para selecionar novos roteiristas para a Oficina de Autores da Globo. O desafio era escrever uma adaptação do poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade. O roteiro dele agradou tanto que o coordenador, Flávio de Campos, duvidou da autoria do texto e o chamou para uma segunda prova. “Fiz um drama ainda mais rasgado”, diz Villari, que conquistou ali a simpatia de Campos. Hoje, aos 33 anos e muitas colaborações para Maria Adelaide Amaral e João Emanuel Carneiro, Vincent é apontado como uma das promessas da emissora. Ele se prepara para escrever sua primeira novela como autor titular, ao lado de Maria Adelaide. “Hoje ele tem maturidade para encarar uma jornada de vários capítulos”, diz ela.


Dar um passo desse tamanho na carreira é o maior dos desafios. Escrever uma história de 200 capítulos diários com uma hora de duração é, basicamente, um trabalho infernal. Aguinaldo Silva costuma delegar a maioria dos diálogos aos seus sete colaboradores – mas fica com a atribuição de conceber, detalhadamente, uma a uma as cerca de 50 cenas que compõem cada capítulo. Cabe a ele, também, a revisão final do trabalho dos colaboradores. Silva é preciosista com seus textos. Ele conta que, quando suas histórias estão no ar, a rotina é de 17 horas diárias de trabalho. “A pessoa que quer começar nisso tem de ser avisada do trabalho duro”, diz. “Quando a novela está no ar, não tenho vida.”


Em abril de 2009, um ano depois de terminar a novela Duas caras, Silva decidiu que era hora de renovar sua equipe de colaboradores. “Estávamos num ritmo burocrático que não me agradava”, afirma. Resolveu então criar sua própria escola, batizada de Master Class. Quando anunciou o concurso, recebeu 1.136 inscrições de aspirantes a novelistas. Trinta foram selecionados e fizeram o curso, divididos em duas turmas. Desse grupo, saíram cinco novos talentos que estreiam nesta semana como seus colaboradores em Fina estampa.

Um deles é Eduardo Nassife, fã de novelas desde que viu o remake de Mulheres de areia, em 1993. Ele diz que, ainda pequeno, gostava de escrever histórias e imaginar que atores as interpretariam. Aos 30 anos, acha que o caminho para começar na televisão sempre foi difícil. O dele começou com Glória Pires. Era fã da atriz, tornou-se amigo dela, e Glória o apresentou ao autor Gilberto Braga. Ao saber que Nassife queria ser roteirista, Gilberto deu-lhe todos os roteiros de suas novelas. Ele estudou os textos e conseguiu sua chance no concurso promovido por Aguinaldo Silva para selecionar os alunos de sua Master Class. Reescreveu uma cena da novela Tieta de uma forma que encantou seu autor.


Nassife diz não se importar com a rotina pesada dos autores de novela. Os salários costumam compensar, mesmo para os colaboradores. Estima-se que um autor titular do horário nobre ganhe entre R$ 400 mil e R$ 500 mil por mês, sem contar os adicionais com merchandising. Fora da Globo, os principais autores recebem cerca de R$ 300 mil. Diante dessas quantias, é fácil compreender por que aumenta o número de interessados em escrever novelas. “Quando eu era estudante, na década de 1980, três ou quatro estudantes queriam escrever novela”, diz Rubens Rewald, cineasta e professor do curso de audiovisual da Universidade de São Paulo (USP). “Hoje, mais de metade de meus alunos quer seguir esse caminho.” Mas que ninguém se engane: apesar da demanda por novos autores, a competição para atingir o status de campeão de audiência continua duríssima.

Fonte: Revista Época

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